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Uma das críticas mais frequentemente feita à teoria de evolução de Darwin, pelas pessoas que não aceitavam a evolução, refere-se à dificuldade em explicar a evolução de órgãos complexos, cujo funcionamento parece depender da integração de um conjunto grande de diferentes componentes, por um processo de seleção natural, em que as mutações ocorrem ao acaso. O exemplo típico apresentado era o do olho humano, paradigma de perfeição, comparado à obra de um relojoeiro sublime. Contudo, se olharmos com mais atenção, verificamos que o olho humano está longe de ser perfeito e revela mesmo as marcas da sua história evolutiva, o que a biologia molecular veio reforçar ainda mais (Fernald, 2006). Como referiu (Dawkins, 1988), o olho humano não é a obra de um criador inteligente: o relojoeiro só poderia ser cego.

Contrariamente à maior parte dos vertebrados, que têm quatro fotorrecetores diferentes, nós possuímos apenas três. Mas, a maioria dos restantes mamíferos possui apenas dois. Pensa-se que a evolução para uma vida noturna dos primeiros mamíferos, ao longo de muitos milhões de anos, conduziu à perda de dois dos quatro tipos de recetores de cor, presentes nos antepassados répteis. Mais tarde, um grupo destes mamíferos especializou-se a comer frutos, os quais contrastam contra o verde da vegetação, para os quais uma visão mais colorida foi importante. Esse grupo é o dos primatas de que fazemos parte. Estudos moleculares sugerem que esses recetores dependem de genes recentes, que terão evoluído há cerca de 40 milhões de anos, altura em que a África e a América do Sul se separaram e os macacos do velho e do novo mundo seguiram caminhos diferentes.

A evolução dos olhos não é tão difícil como possa parecer à primeira vista. A demonstrá-lo, está o facto de nos animais terem surgido olhos cerca de 40 a 60 vezes independentemente. Não seria esse o caso, se os olhos tivessem muita dificuldade em evoluir. Encontramos nos organismos atuais muitas das formas mais simples e primitivas que poderão ter constituído estádios da evolução de olhos mais complexos.

Uma simulação da evolução de olhos, realizada por Nilsson e Pelger (1994), revelou que, sem pré-condições especiais, é possível a evolução de um olho típico de vertebrado em apenas 400 mil gerações, o que pode representar cerca de 500 mil anos para a evolução: um instante em termos de tempo evolutivo.

A presença de olhos representa uma vantagem competitiva enorme para os animais que os possuem, já que podem detetar fontes de alimento, presas e predadores à distância, além de poderem evitar obstáculos. E, ainda que outros organismos tenham encontrado outras formas de orientação espacial, como os morcegos, ou os peixes elétricos, tal ocorre em condições em que os olhos não conseguem funcionar eficazmente: em situação de escuridão ou de águas muito turvas, o que confirma a enorme vantagem que os olhos têm na maior parte das condições de vida dos animais na Terra.

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Figura 1 – Modelo do olho humano. Produzido por Auzoux, em 1858. [Museu de Física da Universidade de Coimbra. FIS 497]

Os olhos de cada tipo de animal estão adaptados ao seu modo de vida e necessidades específicas. Nós, como os restantes primatas diurnos, temos, além de uma boa resolução de imagens, uma visão colorida que nos permite distinguir bem o verde do vermelho ou do amarelo, o que é importante para animais que se alimentam de frutos. Mas os animais com olhos mais simples provavelmente não necessitam de ver como nós para se alimentarem, reproduzirem e evitarem os seus predadores. A evolução não conduz à formação de órgãos perfeitos: mas sim e apenas de órgãos eficazes para a sobrevivência dos organismos.

Paulo Gama Mota

In “Catálogo do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra” (Site)

Referências

Dawkins, R. 1988. O relojoeiro cego. Lisboa: Edições 70.

Fernald, R. 2006. Casting a genetic light on the evolution of eyes. Science, 313, 1914-1918.

Nilsson, D. E. & Pelger, S. 1994. A Pessimistic Estimate of the Time Required for an Eye to Evolve. Proceedings of the Royal Society of LondonSeries B-Biological Sciences, 256, 53-58.